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Entrevista por competências: perguntas que revelam comportamento

O que a pesquisa diz sobre entrevistas, como usar o método STAR e como montar um roteiro que compara candidatos com o mesmo critério.

Por Samanta Ramos6 min de leitura

Candidata em uma entrevista de emprego

Em resumo

  • Entrevistas estruturadas preveem desempenho muito melhor que conversas livres, segundo décadas de pesquisa.
  • A entrevista por competências pergunta sobre situações que o candidato viveu, não sobre o que ele faria.
  • O método STAR (situação, tarefa, ação e resultado) ajuda a conduzir e a avaliar as respostas.
  • Cada entrevistador avalia sozinho, antes de discutir com os outros. É assim que se reduz o viés.

Três gestores entrevistam o mesmo candidato para uma vaga de coordenação. Na reunião de decisão, um diz que ele é “muito maduro”, outro que “faltou brilho” e o terceiro que “tem cara de quem entrega”. Ninguém consegue dizer exatamente por quê. A decisão sai no voto, e o critério que venceu foi a impressão de cada um.

Essa cena é comum, e a pesquisa sobre seleção de pessoas explica por que ela leva a erros. Entrevistas sem roteiro medem, em boa parte, o quanto o entrevistador simpatizou com o candidato. Entrevistas estruturadas, com as mesmas perguntas e critérios definidos antes, medem o que interessa: a chance de a pessoa ter bom desempenho no cargo.

O que a pesquisa diz

Por muito tempo, a principal referência sobre o tema foi a meta-análise de Frank Schmidt e John Hunter, publicada em 1998 no Psychological Bulletin, que comparou 85 anos de estudos sobre métodos de seleção. Em 2022, Paul Sackett e colegas revisaram essas estimativas no Journal of Applied Psychology, corrigindo um problema estatístico que inflava os números.

As conclusões mudaram em alguns pontos, mas não neste: a entrevista estruturada ficou no topo da lista, com validade estimada em 0,42. A entrevista não estruturada ficou em 0,19, menos da metade.

Método de seleçãoValidade estimada (Sackett et al., 2022)
Entrevista estruturada0,42
Testes de conhecimento do trabalho0,40
Amostras de trabalho (simulações)0,33
Testes de habilidade cognitiva0,31
Entrevista não estruturada0,19

Validade, aqui, é a correlação entre a avaliação feita no processo seletivo e o desempenho observado depois no trabalho. Quanto mais perto de 1, melhor o método prevê o desempenho.

O Google chegou a conclusões parecidas olhando os próprios dados. Laszlo Bock, que comandou a área de pessoas da empresa, contou que a análise interna mostrou que quatro entrevistas estruturadas bastavam para prever a decisão de contratação com 86% de confiança. Entrevistadores adicionais acrescentavam muito pouco.

O que é a entrevista por competências

A ideia vem do trabalho do psicólogo David McClelland nos anos 1970, que propôs avaliar competências pelo comportamento real das pessoas em situações concretas, e não por testes de aptidão genéricos. A premissa é simples: o que alguém já fez é uma pista melhor do que vai fazer do que aquilo que diz que faria.

Por isso a pergunta “como você lidaria com um conflito na equipe?” funciona mal. Quase todo candidato sabe a resposta certa. Já “conte uma vez em que você discordou de um colega sobre uma decisão importante” obriga a pessoa a buscar um fato, com contexto, ações e consequências. Fica muito mais difícil inventar.

Defina as competências antes de marcar a entrevista

Escolha de três a cinco competências que realmente fazem diferença na vaga. Mais que isso dilui a avaliação. Para uma liderança, talvez desenvolvimento de pessoas, tomada de decisão e gestão de conflitos. Para um analista, organização, rigor técnico e comunicação com outras áreas.

Para cada competência, escreva o que seria uma resposta forte e uma resposta fraca, em uma escala simples de 1 a 4. Isso tira a avaliação do campo da impressão.

NotaTomada de decisão: o que se espera ouvir
1Não traz exemplo concreto ou descreve decisões tomadas por outros.
2Traz exemplo, mas sem clareza sobre alternativas ou critérios.
3Explica as alternativas, o critério usado e o resultado.
4Além disso, mostra o que aprendeu e o que faria diferente.

O método STAR

Uma boa resposta comportamental tem quatro partes. O método STAR, sigla em inglês para situação, tarefa, ação e resultado, serve de guia para o entrevistador: quando alguma parte falta, é hora de aprofundar.

  1. 01

    Situação

    Qual era o contexto? Onde, quando e com quem.

  2. 02

    Tarefa

    Qual era o papel da pessoa e o que se esperava dela.

  3. 03

    Ação

    O que ela fez, em primeira pessoa. “Nós fizemos” pede um “e qual foi a sua parte?”.

  4. 04

    Resultado

    O que aconteceu depois, com números quando houver, e o que ela aprendeu.

Exemplos de perguntas

  • Trabalho em equipe: conte uma vez em que você discordou de um colega sobre algo importante. Como resolveram?
  • Resolução de problemas: fale de um problema que estava parado havia tempo e que você ajudou a destravar.
  • Organização: descreva um período com muitas entregas ao mesmo tempo. Como você decidiu o que vinha primeiro?
  • Influência: conte uma situação em que você precisou convencer alguém sem ter autoridade sobre a pessoa.
  • Aprendizado: qual foi o erro mais importante que você cometeu no trabalho? O que mudou depois?
  • Liderança: fale de alguém do seu time que melhorou muito com a sua ajuda. O que você fez?

Depois da primeira resposta, as perguntas de aprofundamento fazem o trabalho pesado: “o que você fez exatamente?”, “por que escolheu esse caminho?”, “o que aconteceu depois?”, “quem mais poderia confirmar essa história?”.

Como reduzir o viés na decisão

Mesmo com roteiro, os entrevistadores continuam humanos. Daniel Kahneman, Olivier Sibony e Cass Sunstein dedicam parte do livro Ruído (Noise, 2021) às decisões de contratação e recomendam duas práticas que qualquer empresa consegue adotar.

  • Avaliar por partes: dar uma nota para cada competência separadamente, antes de formar uma opinião geral. Isso reduz o efeito halo, quando uma boa impressão inicial contamina todo o resto.
  • Avaliar sozinho, antes de discutir: cada entrevistador registra suas notas antes da reunião de decisão. Quando a discussão vem primeiro, a opinião de quem fala antes, ou de quem tem mais poder, puxa as outras.
Pergunte sobre fatos, anote o que ouviu e avalie depois. Decidir no meio da conversa é o atalho mais comum para o viés.

Estrutura não é engessamento

Uma objeção comum é que a entrevista estruturada fica robótica. Não precisa. O roteiro define as perguntas-base e os critérios, mas o entrevistador tem liberdade para aprofundar, voltar a um ponto e conversar. O que não muda de um candidato para outro é o que está sendo avaliado e como.

Perguntas frequentes

Quantas competências avaliar em uma entrevista?

De três a cinco. Mais que isso, as perguntas ficam superficiais e a avaliação perde precisão. Se a vaga exige mais competências, distribua entre entrevistadores diferentes.

Quanto tempo deve durar uma entrevista por competências?

Entre 45 minutos e uma hora costuma ser suficiente para explorar de três a quatro competências com profundidade, incluindo as perguntas de aprofundamento e o espaço para o candidato perguntar.

E se o candidato não tiver experiência profissional?

Para estágios e primeiras posições, as perguntas podem se referir a situações da faculdade, de trabalhos voluntários, projetos pessoais ou da vida em geral. O que importa é o comportamento em situações reais, não onde elas aconteceram.

Entrevista por competências funciona para cargos técnicos?

Sim, combinada com uma avaliação técnica. A entrevista avalia comportamento (como a pessoa resolve problemas, colabora e lida com erros), e o teste técnico avalia o conhecimento. Pesquisas mostram que métodos estruturados funcionam melhor em ambos os casos.

Fontes

  1. Sackett, Zhang, Berry e Lievens. Revisiting meta-analytic estimates of validity in personnel selection. Journal of Applied Psychology, 2022
  2. Schmidt e Hunter. The validity and utility of selection methods in personnel psychology. Psychological Bulletin, 1998
  3. CNBC. Here's how many Google interviews it takes to hire a Googler, 2019
  4. Daniel Kahneman, Olivier Sibony e Cass Sunstein. Ruído: uma falha no julgamento humano. Objetiva, 2021
  5. David C. McClelland. Testing for competence rather than for “intelligence”. American Psychologist, 1973

Conteúdo informativo, preparado para ajudar no dia a dia de quem contrata e lidera pessoas. Não substitui a orientação de um advogado, contador ou especialista para o caso da sua empresa.

Escrito por

Samanta Ramos

Consultoria de recrutamento e seleção Nexco

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