Gestão de pessoas Artigo

Entrevista de desligamento: como usar para reduzir a rotatividade

Quem está saindo costuma falar com mais franqueza sobre a empresa. Como conduzir a entrevista de desligamento, o que perguntar, como analisar as respostas e transformar o que se ouve em mudança.

Por Mariana Pianta5 min de leitura

Profissional trabalhando no notebook

Em resumo

  • A entrevista de desligamento é uma das poucas conversas em que a pessoa fala com franqueza sobre a empresa.
  • Artigo da Harvard Business Review aponta que muitos programas falham por dados ruins e falta de método.
  • Quem conduz não deve ser o gestor direto de quem sai.
  • O valor está nos padrões, não nas respostas isoladas, e na ação que vem depois.

Em um ano, quatro pessoas saíram do mesmo time de atendimento. Nas quatro saídas, o formulário de desligamento registrou o mesmo motivo: “proposta melhor”. Só quando uma consultora de RH conversou com calma com a quinta pessoa que saiu apareceu a história completa: a coordenação do time tinha mudado, as escalas passaram a ser definidas sem conversa e as pessoas se sentiam cobradas em público. A proposta melhor existia, mas só foi aceita porque havia um motivo para procurar.

A entrevista de desligamento, quando bem feita, é uma das melhores fontes de informação sobre o que acontece dentro da empresa. Quando mal feita, vira um formulário que confirma o que todo mundo já acha que sabe.

Por que tantos programas não funcionam

Everett Spain e Boris Groysberg analisaram o tema em um artigo publicado em 2016 na Harvard Business Review, com base em pesquisas com empresas e profissionais. A conclusão foi que a entrevista de desligamento é uma ferramenta subaproveitada: poucas empresas conseguem usá-la para melhorar a retenção ou gerar informação útil, e os autores atribuem isso principalmente à baixa qualidade dos dados coletados e à falta de consenso sobre boas práticas.

Na prática, os problemas mais comuns são parecidos em quase toda empresa: perguntas genéricas, conversa conduzida por quem tem relação direta com o problema, respostas que ninguém analisa e nenhuma mudança depois.

Quem deve conduzir

A pessoa que está saindo precisa se sentir à vontade para falar com franqueza. Por isso, o gestor direto dela não é a melhor pessoa para conduzir a conversa, especialmente se a liderança for parte do motivo da saída.

  • Um profissional de RH que não tenha relação direta com o time costuma ser a melhor opção.
  • Uma consultoria externa pode ajudar em empresas pequenas, onde todos se conhecem, ou quando se quer mais isenção.
  • Um questionário anônimo, complementando a conversa, pode captar o que a pessoa não se sente à vontade para dizer pessoalmente.

Quando fazer

Muitas empresas fazem a entrevista no último dia, no meio da correria de devolver equipamentos e assinar documentos. Uma alternativa melhor é conversar alguns dias antes da saída, com tempo e sem pressa. Algumas empresas também fazem um segundo contato algumas semanas depois, quando a pessoa já está em outro lugar e costuma falar com ainda mais distanciamento.

O que perguntar

Perguntas abertas, sobre fatos, rendem mais que listas de múltipla escolha. O objetivo é entender a história da decisão, não só o motivo final.

  • Quando você começou a pensar em sair? O que aconteceu naquele momento?
  • O que fez você aceitar a nova oportunidade?
  • O que teria feito você ficar?
  • Como era a relação com a liderança e com o time?
  • O que você mudaria na sua função, se pudesse?
  • O que funciona bem aqui e deveria ser mantido?
  • Você recomendaria a empresa para um amigo? Por quê?

Combine as regras da conversa

Deixe claro no início como as informações serão usadas e quem terá acesso a elas. Se, durante a conversa, surgir um relato que precise de apuração, oriente a pessoa sobre os canais internos adequados e encaminhe o assunto conforme as políticas da empresa.

Como analisar as respostas

Uma entrevista isolada conta uma história. Várias entrevistas mostram padrões, e é aí que está o valor. Registre as respostas de forma organizada, com categorias simples, e olhe para elas a cada trimestre ou semestre.

PadrãoO que costuma indicar
Saídas concentradas em um mesmo timeQuestões de liderança ou de carga de trabalho naquele time
Saídas no primeiro anoProblemas de contratação, de expectativa ou de integração
Saídas de pessoas com muitos anos de casaFalta de caminho de crescimento ou de reconhecimento
Mesmo motivo em áreas diferentesUma questão da empresa como um todo, como remuneração ou políticas

Da informação à ação

Spain e Groysberg destacam que a entrevista de desligamento também tem um efeito para quem fica: quando as pessoas percebem que as saídas geram mudanças, entendem que a opinião delas importa. O contrário também é verdade. Perguntar e não mudar nada transmite a mensagem oposta.

  1. 01

    Compartilhe os padrões

    Com a liderança, de forma consolidada, sem expor pessoas.

  2. 02

    Escolha poucas ações

    Duas ou três mudanças concretas por ciclo valem mais que uma lista longa que ninguém executa.

  3. 03

    Acompanhe o efeito

    A rotatividade no time ou no tema caiu depois da mudança?

Antes da saída: a conversa de permanência

A entrevista de desligamento mostra o que já aconteceu. A conversa de permanência, feita com quem está na empresa, mostra o que pode acontecer. Perguntar periodicamente “o que faz você ficar?” e “o que poderia fazer você sair?” permite agir antes que a próxima pessoa peça para sair.

Um roteiro para a conversa

  1. 01

    Abertura

    Agradeça, explique o objetivo da conversa e combine como as informações serão usadas.

  2. 02

    A trajetória

    Peça para a pessoa contar como foi o tempo dela na empresa: os melhores momentos e os mais difíceis.

  3. 03

    A decisão

    Quando começou a pensar em sair, o que pesou e o que teria feito diferença.

  4. 04

    Sugestões

    O que ela mudaria e o que deveria ser mantido.

  5. 05

    Encerramento

    Agradeça de novo e deixe a porta aberta. Muitos profissionais voltam, anos depois, a empresas onde saíram bem.

Durante a conversa, ouça mais do que fale. Evite se defender ou justificar decisões da empresa: o objetivo é entender a visão da pessoa, não convencê-la de nada.

Perguntas frequentes

A entrevista de desligamento deve ser feita em todos os casos?

O ideal é oferecer a conversa em todas as saídas, inclusive quando a iniciativa é da empresa, sempre como um convite. Nas saídas por iniciativa da empresa, a conversa costuma ter outro tom e outras perguntas, mais focadas na experiência da pessoa ao longo do tempo na empresa.

Questionário ou conversa?

Os dois se complementam. A conversa permite aprofundar e entender a história. O questionário, especialmente se anônimo, capta o que a pessoa prefere não dizer pessoalmente e facilita comparar respostas ao longo do tempo.

Quanto tempo deve durar?

Entre 30 e 45 minutos costumam ser suficientes para uma conversa aberta, sem pressa, com espaço para a pessoa contar a própria história.

Fontes

  1. Everett Spain e Boris Groysberg. Making Exit Interviews Count. Harvard Business Review, 2016

Conteúdo informativo, preparado para ajudar no dia a dia de quem contrata e lidera pessoas. Não substitui a orientação de um advogado, contador ou especialista para o caso da sua empresa.

Escrito por

Mariana Pianta

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