Tecnologia Artigo

Avaliação técnica: como medir o que importa sem afastar candidatos

Testes longos afastam os melhores profissionais. O que a pesquisa diz sobre métodos de avaliação e os formatos que medem competência técnica respeitando o tempo do candidato.

Por Daniel Moraes5 min de leitura

Profissionais com fones de ouvido trabalhando em computadores

Em resumo

  • Amostras de trabalho e testes de conhecimento estão entre os métodos com melhor validade para prever desempenho.
  • Charadas e perguntas “criativas” não preveem nada, segundo a análise do próprio Google.
  • Revisão de código, resolução de problemas em conversa e desafios curtos costumam funcionar melhor que testes longos.
  • Critérios definidos antes e retorno ao candidato tornam a avaliação justa e reforçam a marca da empresa.

O candidato recebeu, numa sexta-feira, um desafio técnico com prazo de uma semana: construir uma aplicação completa, com back-end, front-end, testes automatizados e documentação. Ele tinha emprego, família e outras duas entrevistas marcadas. Respondeu com educação que não conseguiria participar. Era o perfil que a empresa procurava havia dois meses.

A avaliação técnica existe para responder a uma pergunta: essa pessoa consegue fazer o trabalho? Quando o teste é longo demais, genérico ou distante do dia a dia, ele passa a medir outra coisa, como a disponibilidade de tempo livre do candidato. E os profissionais mais experientes, que têm mais opções, são os primeiros a desistir.

O que a pesquisa diz sobre métodos de avaliação

A psicologia organizacional estuda há décadas quais métodos de seleção preveem melhor o desempenho no trabalho. A revisão mais recente, publicada por Paul Sackett e colegas no Journal of Applied Psychology em 2022, colocou no topo a entrevista estruturada (validade de 0,42), seguida por testes de conhecimento do trabalho (0,40) e por amostras de trabalho, as simulações de tarefas reais do cargo (0,33).

Para avaliação técnica, a mensagem é clara: funciona o que se parece com o trabalho real e é avaliado com critérios definidos. Perguntas genéricas, sem relação com a função, não funcionam.

O Google chegou a uma conclusão parecida olhando os próprios dados. Em 2013, Laszlo Bock, então vice-presidente de pessoas da empresa, contou ao New York Times que as famosas charadas usadas em entrevistas (quantas bolas de golfe cabem em um avião?) eram “uma completa perda de tempo”: não previam nada e serviam principalmente para o entrevistador se sentir inteligente.

Defina o que medir antes de escolher o formato

Antes de escolher o teste, liste as competências técnicas que a vaga realmente exige, e em que nível. Um erro comum é avaliar o que é fácil de testar, como algoritmos clássicos, em vez do que o trabalho pede, como modelar dados, desenhar uma API, depurar um problema em produção ou ler código dos outros.

VagaO que o trabalho pedeO que avaliar
Back-endModelar dados, desenhar APIs, lidar com falhasDesenho de uma API simples e discussão de trade-offs
Front-endComponentes, estado, acessibilidade, performanceConstrução ou revisão de um componente real
DadosConsultas, qualidade dos dados, comunicação de resultadosAnálise de uma base pequena com apresentação curta
InfraestruturaAutomação, observabilidade, resposta a incidentesDiagnóstico de um incidente simulado em conversa

Formatos que funcionam

Revisão de código

O candidato recebe um trecho de código com problemas (de lógica, de legibilidade, de segurança) e comenta como faria em uma revisão real. Em 45 minutos, mostra conhecimento técnico, senso de qualidade e forma de se comunicar com colegas. É um dos formatos com melhor relação entre informação obtida e tempo investido.

Problema real em conversa

Um desenvolvedor do time apresenta um problema que a equipe enfrentou de verdade, simplificado, e discute com o candidato como ele resolveria. O objetivo é ver raciocínio, perguntas que ele faz e como lida com restrições, não memória.

Programação em par

O candidato e um desenvolvedor do time resolvem juntos uma tarefa pequena, em uma sessão de uma a duas horas. Mostra como a pessoa pensa, como pede ajuda e como recebe sugestões. Funciona melhor quando o entrevistador está preparado para colaborar, e não para fiscalizar.

Desafio curto para casa

Uma tarefa pequena, com escopo claro e tempo esperado informado, de preferência até três ou quatro horas. Vale combinar que a entrega será discutida em uma conversa posterior, o que dá mais valor ao trabalho do candidato e ajuda a confirmar a autoria.

Conversa sobre projetos anteriores

O candidato explica decisões técnicas de um projeto que conduziu: por que escolheu aquela arquitetura, o que deu errado, o que faria diferente. Para posições seniores, costuma revelar mais que qualquer teste.

Desafios para casa

Se optar por um desafio para casa, informe o tempo esperado e respeite-o na avaliação. Um desafio que exige um fim de semana inteiro é um convite para desistir, especialmente para quem já está empregado.

Critérios antes da avaliação

Sem critérios definidos, dois avaliadores olham a mesma solução e chegam a notas opostas. Escreva, antes de aplicar o teste, o que é uma solução excelente, aceitável e insuficiente, e o que pesa mais.

  1. 01

    Escreva os critérios

    Correção, clareza do código, testes, tratamento de erros, comunicação. E o peso de cada um para aquela vaga.

  2. 02

    Use os mesmos para todos

    Assim os candidatos são comparados com a mesma régua, e não com o humor do avaliador naquele dia.

  3. 03

    Avalie antes de discutir

    Cada avaliador registra sua nota sozinho, antes de conversar com os outros.

  4. 04

    Dê retorno

    Sempre que possível, um comentário objetivo sobre a avaliação, inclusive para quem não seguiu. Desenvolvedores conversam entre si, e a reputação do processo circula.

E a inteligência artificial?

Com assistentes de programação cada vez mais comuns no dia a dia, muitas empresas estão revendo suas avaliações. Proibir as ferramentas no teste pode avaliar um cenário que não existe mais no trabalho real. Permitir sem critério pode tornar o desafio para casa pouco informativo. Um caminho equilibrado é focar em formatos conversados, como revisão de código, problema real e discussão do desafio entregue, em que o raciocínio do candidato aparece por inteiro.

Uma boa avaliação técnica parece um dia de trabalho, não uma prova.

Perguntas frequentes

Teste técnico para casa ainda faz sentido?

Pode fazer, desde que seja curto, com escopo claro e tempo esperado informado. Discutir a solução em uma conversa posterior aumenta o valor do teste e ajuda a entender o raciocínio do candidato, inclusive em um cenário em que assistentes de IA são comuns.

Devo pagar pelo tempo do candidato em testes longos?

Algumas empresas pagam por desafios que exigem muitas horas, como forma de respeitar o tempo do candidato. A alternativa mais simples é reduzir o escopo do teste a algo que caiba em poucas horas.

Quem deve avaliar o teste técnico?

Desenvolvedores do time, com critérios escritos antes. Idealmente, mais de um avaliador, cada um registrando a nota sozinho antes da discussão. Isso reduz a influência de preferências pessoais de estilo sobre a avaliação.

Fontes

  1. Sackett, Zhang, Berry e Lievens. Revisiting meta-analytic estimates of validity in personnel selection. Journal of Applied Psychology, 2022
  2. ABC News. Google skips 'waste of time' brainteaser interview questions, 2013

Conteúdo informativo, preparado para ajudar no dia a dia de quem contrata e lidera pessoas. Não substitui a orientação de um advogado, contador ou especialista para o caso da sua empresa.

Escrito por

Daniel Moraes

Consultoria de recrutamento e seleção Nexco

Recrutamento de TI
Nexco Solução relacionada

Prefere que um especialista cuide disso?

Recrutadores especializados em tecnologia para contratar desenvolvedores, DevOps, dados, produto e lideranças técnicas. Um consultor da área responde em média em 48h.

Insights Continue lendo

Leia também

Ver todos os artigos
Desenvolvedor conversando com a equipe em uma mesa de trabalho

Tecnologia5 min de leitura

Como contratar desenvolvedores em um mercado disputado

O Brasil forma menos profissionais de tecnologia do que o mercado demanda. O que pesa na decisão dos desenvolvedores e como ajustar a vaga e o processo para não perder candidatos.

Daniel Moraes

Desenvolvedores revisando código em um monitor

Tecnologia5 min de leitura

Squads gerenciados ou time próprio: como decidir

Custo, controle, prazo e conhecimento lado a lado, para escolher entre montar um time interno de tecnologia ou contratar um squad, com o que dizem as referências de engenharia de software.

Daniel Moraes

Equipe de tecnologia trabalhando em computadores

Tecnologia5 min de leitura

Alocação de profissionais de TI: quando faz sentido

Reforçar o time por um período, cobrir uma competência específica ou acelerar um projeto. Como funciona a alocação, o que avaliar antes de contratar e como comparar custos.

Daniel Moraes